CINCO BOCAS

No hostil ambiente do Sertão nordestino apenas os vaqueiros sabem como domar a gado e dobrá-lo à sua vontade. Contudo, o castigo das secas não é a única ameaça ao estilo de vida sertaneja, à medida que técnicas pastoris habituais são superadas pela mecanização da exploração do gado, roubando do homem sua conexão com o animal e a terra. Ignorantes às diversas polêmicas geradas em torno dos métodos contemporâneos da criação de gado, desde o desequilíbrio ambiental até os direitos dos animais, os vaqueiros seguem inquebráveis, misturando práticas antigas com novas técnicas, numa tímida e incremental tentativa de acompanhar o mundo.

Apesar de tudo, o antigo dizer camponês ainda é verdadeiro:
“A vaca é um animal que come com cinco bocas.”

Quem vive no campo logo o decifra: uma boca mastiga enquanto as outras pisoteiam. Antiga advertência para que se preste cuidado tanto ao bem estar do animal quanto ao pasto inutilizado por sua passagem, remetendo a técnicas ainda utilizadas na criação de gado. 

Inesperadamente, as mesmas palavras me contaram outra história, profética.
 
Guiada por elas me aventurei num território ao qual não pertencia. Dos relatos das bocas formei a besta mitológica, tal qual Frankenstein dando vida a sua criatura. Dançava em meus sonhos, porém teimava em revelar-se ao olho nu. Devorava a terra até se tornar a terra. Somente então, depois de sacrificar-se ao solo, apresentava sua verdadeira forma, nem humana nem animal, antes o próprio Teseu, em carne, couro e chifre. 

Enfim, revelou-se a verdade: 
O homem é a criatura, 
A criatura, seu labirinto.
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